1 que a Torqverem é e representa para você?

- V. A. Necrovisceral: Primeiramente agradeço pela oportunidade que tenho em expor um pouco mais sobre minha visão e interpretação do universo através das frias lâminas da entidade Torqverem.
Posso dizer que a Torqverem é a forma mais animalesca e primordial de expressão manifestada em arte, pois cada letra, acorde ou batida possui uma função específica, somando e canalizando energia para a criação de uma obscura sinfonia de perturbação e reflexão interna, facilitando o contato com áreas pouco exploradas (e até estéreis) de nossa existência e interpretação da realidade. Vejo a Torqverem como algo íntimo e individual, cada um absorverá de forma única, e isso ocorre pela maneira abstrata e livre da absorção de acordo com a afinidade, por isso possuímos tanta “subjetividade” em nossa criação. Muitos rotulam nosso som como “caótico e perturbador”, até “misantrópico, frio e anti-humano”, e isso é ótimo! Pretendo atingir o caos interno expondo o funeral da coletividade humana e mórbida nesse mundo débil que nos entorpece diariamente como um câncer, e que corrói a nossa essência, pois o homem é forte, evolui e se adapta quando reconhece seu meio e a si mesmo! Essa é a Torqverem, uma expressão que criei para expor meus mais preciosos e íntimos abismos a outros seres que tiverem afinidade, ou perturbando suas vazias existências.

    2 que são e o que representam para você: a Morte, o Caos, a Misantropia e a Guerra?

- V. A. Necrovisceral: Achei pertinente a questão, pois citou os pilares que arquiteto a filosofia da Torqverem, os quatro em minha opinião são fundamentais para a compreensão do ser humano e sua evolução, penso ser equivocada a frase “só o amor constrói”, eu complementaria dizendo que apenas o ódio quebra as correntes que te aprisionam! Pois a morte é o processo maravilhoso da renovação, prepotência é acreditar que nosso nascimento foi a maior das “dádivas”, pois ele é fruto de incontáveis mortes para que sua expressão fosse originada! Por exemplo, tudo nasce e morre diariamente em nosso organismo para que a consciência de unidade continue se manifestando, e a consciência é o poder! Através da morte coletiva absoluta que alcançamos o nosso caos, vejo o caos como a potência da criação! Uma energia bruta e essencial que poucos têm a coragem de utilizá-la verdadeiramente, destruindo ou criando de acordo com a interpretação e a natureza de quem o evoca, todos somos um denso e obscuro universo particular, e nossa mente nem sempre interpreta as informações deste plano de forma satisfatória, expressamos nossa vontade de acordo com a manifestação da energia e as formas que estamos familiarizados para que ela flua, e é esse o ponto onde entram a misantropia e a guerra, pois criei uma filosofia de vida que chamo de “misantropia intelectual”, que consiste na absorção do universo e das energias de forma seletiva, preservando e mantendo a essência protegida. A tendência do ser humano é cair em seus próprios abismos, um labirinto que muitos se perdem ao seguirem os comportamentos coletivos que te enfraquecem! Nossa “programação” é animal, apenas para sobrevivência, mas podemos quebrar essa “maldição” e exigir mais da nossa existência! E a única forma é “morrendo” e encontrando os meios para a destruição coletiva, essa é a mensagem da Torqverem, essa é a energia destrutiva que emana de nossa criação, pois a verdadeira guerra é interna, não prezo pela quantidade do exército, e sim pela sua qualidade! Um bando boçal de ovelhas não serve para nada! E esta é a minha guerra contra os dogmas e a ignorância que exalto entre os seres. Apenas os conquistadores e os detentores das mais poderosas armas desejam a paz, pois eles estão prontos para a guerra! A “paz” é ilusória, pois a simples existência consiste na guerra, estar vivo é uma guerra de autopreservação.

    3 Na Arte da Torqverem observamos influências relacionadas ao misticismo e ao ocultismo alinhados ao Caminho da Mão Esquerda. Você poderia nos falar sobre essas influências? Elas se dão de maneira empírica ou mais conceitual?

- V. A. Necrovisceral: As coisas simplesmente fluem, não vejo minha essência de outra forma, portanto o que expresso na Torqverem é um reflexo da minha própria existência e também da profunda complexidade humana através da vasta criação que a arte me proporciona. Toda força e energia canalizadas em nossa expressão vieram de experiências práticas e da minha interpretação do universo, desde jovem fui muito curioso e me interessei pela natureza e a forma que a energia se manifesta e flui em todas as suas faces através da fria névoa que pairava diante dos meus olhos. O material da Torqverem é composto por “chaves” e “códigos” pessoais dentro desse obscuro universo, toda arte, letra, simbologia e tudo que carrega a “marca” da Torqverem é manifestado por mim, mantenho fechado hermeticamente para que a minha proposta e objetivos sejam alcançados, afinal é um reflexo da minha própria existência, portando posso dizer que a Torqverem é 100% empírica. A simbologia, alegorias e metáforas que utilizo são citações e influências na qual tive afinidade e acabei descobrindo como me aprofundar ainda mais no padrão que me era apresentado e tomava forma diante da minha face, desde as vísceras primordiais da criação até a manifestação prática da energia em sua forma mais ampla, fiquei surpreso como tudo o que arquitetei tinha ligações tão fortes com outras filosofias e principalmente dentro do ocultismo, ao estudar a base egípcia, das civilizações mesopotâmicas e greco-romana (até por isso a utilização do sumério, egípcio e latim arcaico nas letras), encontrei muito do que “faltava” no meu grande quebra-cabeças, também foi inevitável meu interesse na filosofia e psicologia (que abordo diretamente na Torqverem com as várias interpretações da realidade), e assim fui (e ainda vou) construindo a entidade que denomino Torqverem, e essa foi a prova de que estou trilhando um caminho único, concreto e prático, e talvez a insanidade seja apenas uma abstração da mente...

    4 Como você avalia o atual cenário da música extrema em nosso país?

- V. A. Necrovisceral: De modo geral, nosso cenário é dividido e precário (reflexo da própria realidade do país), isso sem falar da base retrógrada colonial e religiosa que impera em nossa sociedade, que prejudica e acaba limitando em tudo, mas dentro disso existem algumas frentes de “oposição e resistência” que lutam e preservam a seriedade para manterem-se fiéis e vivas, acredito que o Brasil assim como a América Latina têm muito para impor e serem respeitados principalmente pela colonização cri$tã que destruiu nossas origens e moldou as mentes com a demência da servidão. Com o passar do tempo, aprendi a confiar em poucos aliados, e isso nos ajudou muito e proporcionou que a própria Torqverem também crescesse, eu mesmo faço o que estiver ao meu alcance para que as celebrações e eventos que acredito aconteçam (muitas vezes eu mesmo levo aparelhagem, ajudo na logística, bateria, etc., para que nossa força continue viva! Esse é o verdadeiro underground extremo!), mas tenho consciência de que tudo aqui é muito difícil para as bandas subterrâneas na hora de organizarem alguma coisa, existe muita gente mesmo dentro do underground querendo viver e ganhar com isso, e digo isso de forma abrangente, muitos sugam não apenas da nossa cena, mas também vivem da imagem e “status”, e acabam inundando nosso cenário de falsos, aproveitadores e porcarias de bandas que não deveriam ter saído de suas garagens! Toda semana tem um evento “extremo”, mas eu mesmo conto nos dedos os que compareço por não ver sentido em vários deles! Com a facilidade da prensagem, internet e divulgação dos materiais, o meio underground acabou se tornando a “latrina dos excluídos”!

    5 O que você tem ouvido ultimamente e quais são aqueles sons que você costuma ouvir com mais persistência?

- V. A. Necrovisceral: Ultimamente ando pendendo muito para o lado francês, finlandês, alemão e canadense do metal extremo, principalmente por fazerem materiais fora do “padrão” que estamos acostumados e penderem para a corrosão da essência humana, não ficando apenas no “satanismo comercial”, e para mim bandas como Förgjord, Belketre, Brume d’Automne, A Forest, Odal, Peste Noire, 1349, Ravencult e Nordvrede são muito apreciadas! Ultimamente com a minha proximidade na produção de eventos e celebrações acabei conhecendo melhor muitas das bandas (principalmente nacionais), e ainda estou descobrindo várias até pela minha dificuldade em absorver novos materiais, mas posso citar o que ouvi nesta última semana, como o Defacer, Goatlord (USA), Angantyr, Vulturine e Argentum (MEX), além de Coven. Enquanto respondia a entrevista, ouvi bastante algumas obras de Clint Mansell executadas pelos norte-americanos do Kronos Quartet.

    6 Você está envolvido em outros projetos além da Torqverem? Tem interesse em desenvolver outros projetos musicais?

- V. A. Necrovisceral: É muito complicado pensar em manifestar minha arte tão particular fora da Torqverem, já tentei canalizar algumas expressões em  projetos paralelos (a maioria sozinho), mas pelo fato das coisas fluírem sempre pelo mesmo caminho, acabo agregando na própria Torqverem as novas ideias, como foi o exemplo do violino clássico que utilizei nas passagens atmosféricas do álbum “Funeral da Alma Cristã” (que acabou posteriormente sendo incorporado nas linhas de vocal, mantendo a atmosfera densa e mórbida de forma ainda mais natural), assim como o piano e violão presentes nas demos e também no álbum “Vber Crvciatvs” que complementaram a canalização de informações da obra. Vejo a Torqverem como a própria soma dos meus projetos, e não me imaginaria participando de outra banda, mas no final deste ano de 2015 e.v. fui convidado por um grande aliado para somar forças em uma respeitada e obscura horda da década de 90, e em 2016 e.v. quando os círculos se fecharem, as informações serão divulgadas e uma grande e mórbida realização será eviscerada das profundezas e pegará muita gente de surpresa.

    7 Fale-nos um pouco sobre as apresentações. Quais foram os melhores shows que vocês fizeram até o momento? Há previsão para novas apresentações no decorrer desse ano?

- V. A. Necrovisceral: Como expressamos algo “não convencional”, é nítida a feição de “surpresa” do público, mesmo em celebrações pequenas onde tocamos com o nascer do sol, percebo que sempre tem alguém que esperou firme e forte para presenciar nossa obscura arte pessoalmente, isso não tem preço! Me esforço ao máximo para literalmente “explodir” nas apresentações e atingir o público com a mais odiosa e canalizada energia, então se algum evento foi ruim, foi pela aparelhagem precária ou pela nossa própria falha, mas posso citar brevemente quatro casos que me marcaram muito, que foram as celebrações em Curitiba, Rio de Janeiro, Campina Grande e em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), pois Curitiba sempre foi conhecida por ser uma terra fria e com público muito exigente principalmente com as bandas de fora, foi uma grande surpresa a forma que nos receberam e absorveram nossa arte em todas as vezes que tocamos, o Rio de Janeiro também foi surpreendente, mesmo sendo o último evento depois de uma exaustiva tour, a energia era enorme e o público parecia possuído, e mesmo com o cansaço (éramos a última banda), lembro do grande irmão Cesar do Poeticus Severus subindo no palco comigo e pedindo para que continuássemos porque o clima estava “foda demais”, não tem como não reconhecer uma coisa dessas no underground extremo!!! Campina Grande e Santa Cruz de la Sierra foram uma grande surpresa por nunca termos tocado antes no Nordeste ou na Bolívia, e a recepção e interesse foram excepcionais! Vinham discutir sobre as letras e até sobre entrevistas que eu tinha dado há quase uma década! Isso realmente não tem preço e nos dá muita energia para continuarmos produzindo nossa arte com muito orgulho, valorizo as apresentações “ao vivo” tanto quanto no álbum, porque para a Torqverem a expressão “cara a cara” é única e individualizada, um verdadeiro ritual para mostrarmos o que fazemos!! E sem o uso de nada eletrônico ou efeitos como várias pessoas ainda acham que utilizamos, tudo é real... E por enquanto estamos negociando e arquitetando as primeiras apresentações para depois da metade de 2016 e.v., pois o foco agora é a gravação do nosso próximo álbum.

    8 Você acha que os apreciadores da música extrema atualmente apoiam as bandas? Em sua opinião a ‘cultura’ do MP3 e do download desenfreado minam o underground?

- V. A. Necrovisceral: Acredito que a tecnologia está aí para facilitar a troca de informação, e o que fazemos na Torqverem nunca foi para agradar ninguém, e acredito que as reais bandas do extremo metal subterrâneo fazem o mesmo! Então não vejo como um problema, ao contrário, acho que a “era mp3” atrapalha as bandas que querem fazer dinheiro, porque o público subterrâneo é muito fiel e cultua os materiais originais, de uns tempos para cá você consegue pesquisar uma banda ou projeto e ouvir o som do outro lado do mundo, e se for de seu interesse ainda entrar em contato com os membros e pegar diretamente o material, hoje em dia não existe mais informação que não esteja disponível a todos (que também acabou ajudando a revelar muita coisa suja que é importante para a nossa própria limpeza e proteção). Infelizmente sempre virão os “modinhas” que acabam entrando em contato com materiais que não deveriam, mas pessoas assim não possuem a chave para absorverem tal conhecimento e arte, e cedo ou tarde caem pelos cantos junto com a chegada de uma nova moda, portanto eu enxergo que na real “cena” do extremo metal subterrâneo quem não apoia a banda com MP3 faria a mesma porcaria sem MP3...

    9 Falando ainda em ‘underground’ você acredita que há um movimento verdadeiro ou há mais imagem e discurso ao invés de ação? Com o passar dos anos como essa força do ‘movimento’ tem se tornado?

- V. A. Necrovisceral: A maioria dos seres a nossa volta vivem de imagem (dentro ou fora do underground), e não passam de ovelhas sustentando masturbações diárias para que seus egos sujos e fétidos mantenham-se de pé, literalmente encobrindo suas lacunas psicológicas e fracassos com migalhas para sustentarem suas máscaras, e infelizmente na cena underground extrema muitos desses exemplares acabam encontrando refúgio, tanto em  atitudes inconscientes de oposição aos costumes e dogmas familiares quanto em comportamentos vazios de carência. A “popularização” do gênero infelizmente também acabou trazendo algumas distorções que “satirizam” uma proposta que deveria ser séria, e essa é uma das razões da Torqverem ser fechada, preciso proteger e lutar pelo que acredito e vivo, e essa é uma das razões de eu não me importar com as pessoas, as alianças acontecem por afinidade, pelo reconhecimento de sua força, e foi assim que encontrei meus aliados no “movimento”, pois a única forma de criar um movimento sério, seria  compactando os semelhantes em “ilhas” de resistência, porque diferentemente de outros estilos underground, o que fazemos é muito maior do que simples “música e letra”, mas dentro do meu raio de atuação vejo muito esforço da parte de poucos e desunião da maioria, às vezes é mais importante pegar uma menininha qualquer, tomar um copo de cachaça e arrotar frases de efeito é o suficiente para o dito “movimento” underground, mas voltando ao que interessa, em meu círculo de atuação e alianças estou satisfeito e orgulhoso do exército de resistência que mantemos, e que ainda persiste mesmo com tanta dificuldade.

    10 Onde é possível encontrar materiais da Torqverem para aquisição? No site oficial, no link da loja, vemos que tudo está indisponível.

- V. A. Necrovisceral: Desde o início da Torqverem os materiais foram muito restritos e limitados, tenho até hoje as listas numeradas e para quem cada álbum ficou (afinal possuem meu sangue, em todas as nossas demos uma parte minha literalmente foi junto com o material, simbolizando toda minha manifestação não apenas na arte e som, mas também fisicamente no que tenho de mais precioso neste plano, que é o meu sangue), mas estamos trabalhando numa distribuição mais eficaz dentro do cenário underground, pois a proposta nunca foi a divulgação em si, criei a Torqverem como uma forma de manter a minha sanidade, expondo os perfurantes abismos que me consomem de forma particular. Foi uma grande surpresa em ver a aceitação da Torqverem por ser um tipo de arte “fora do padrão”, evoluímos bastante na distribuição do último álbum “Vber Crvciatvs” que já estava disponível em algumas livrarias e lojas especializadas, e no próximo álbum previsto para meados de 2016 e.v., já estamos programando uma melhor distribuição, inclusive iremos investir no merchandising diferenciado, como camisetas e moletons (todos criados e executados por mim, seguindo fielmente nossa proposta dentro do obscuro subterrâneo que trilhamos na Torqverem), mas assim que forem disponibilizados, os novos materiais estarão disponíveis tanto no site quanto nas lojas e distribuidoras especializadas.

    11  Eu agradeço imensamente pela oportunidade e cedo o espaço para suas considerações finais!

- V. A. Necrovisceral: Eu é que agradeço! A Torqverem realmente é a minha vida, não falo ou penso como “músico” ou “artista” do metal extremo, o recado e a minha filosofia sempre foram claras desde o início, deixo todos os textos explícitos nas minhas obras, entrevistas e etc., e também disponíveis em nosso site (www.torqverem.com), fico muito orgulhoso que mais seres tenham curiosidade e afinidade de conhecerem meu obscuro universo, e a entidade que criei através da Torqverem... Gostaria também de citar meus grandes irmãos e aliados nesta guerra: Iser e o recém-chegado percussionista Alcoholic Death! Hoje posso dizer que a estabilidade e força estão conspirando para que o novo material da Torqverem seja uma poderosa arma para o grandioso funeral da criação... E que assim seja! VANA EST IRA INOPS VIRIBVS...